quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Sexualidade na Escola

De acordo com os diversos pensadores ao longo da história do desenvolvimento do ser humano, o verdadeiro homem, independente de seu gênero, é aquele que consegue se apropriar do maior número de informações dentro das ciências, artes e filosofia.

Esse utópico ser contrasta com o homem real, limitado e imperfeito que traça sua existência dentro dos padrões sócio-culturais onde está inserido, vítima dos próprios valores acumulados de geração em geração, muitas das vezes equivocados e alheios aos anseios pessoais e ambientais.

A hegemonia de alguns grupos intervém de forma significativa nos valores culturais, filosóficos e religiosos, impondo suas leis, regras e princípios morais. Na perspectiva da existência de governos fundados em princípios democráticos e que possibilitem as discussões dos mais diversos temas, por mais polêmicos que pareçam, fica mais fácil ouvir aos anseios de uma sociedade que busca ser mais justa a todos os seus cidadãos.

Neste contexto social, destaca-se o papel da escola como reduto de análise, estudo e formação de opinião com reflexo direto no perfil de comportamento de toda comunidade escolar. Assim, a escola laica atende ao seu principal objetivo: a formação de indivíduos sabedores de seus direitos e deveres dentro da diversidade sócio-cultural ao qual estão mergulhados.

Muito se avançou nas questões que envolvem raças, etnias, meio ambiente, direitos humanos, etc. O próprio ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, que acaba de completar 18 anos de existência, não consegue coibir todas as injustiças contra seus tutelados e que, mesmo assim, não deixa de ser legítimo e de ter suma importância.

Chegou a hora e a vez de se tratar de um dos temas mais polêmicos, se não o maior, que permeia as relações humanas desde há muito tempo e que, por muitas vezes, foi construído sobre falsos valores e tabus – a sexualidade humana.

Desde o mais remoto período, os filósofos gregos já sabiam e defendiam que a saúde do corpo dependia da saúde da mente e vice-versa. Nessa linha de pensamento e já sob a ótica da medicina moderna que comprova que um dos males da humanidade é o estresse, torna-se evidente que a vivência plena e equilibrada das pessoas vai além de sua homeostasia biológica. É por intermédio de uma estrutura psicológica que sua idiossincrasia se consolida e lhe confere a maneira de interagir em seu meio social.

Mesmo antes do nascimento, o desenvolvimento intrauterino é espionado para se saber o sexo da criança e, a partir daí, definir se no vestuário desta vai predominar as tonalidades de rosa ou de azul; se o primeiro brinquedo vai ser um carrinho ou uma boneca; se ele vai poder fazer isso ou aquilo. Nos primeiros anos de existência começam a receber os fundamentos dialéticos daquilo que pertence ao universo masculino ou ao universo feminino.

"Menina não faz assim"; "Isso é coisa de macho"; e assim vai sofrendo um bombardeio de conselhos daquilo que pode ou daquilo que não pode diante de sua condição sexual.

Não importa se seus hormônios sexuais e toda sua bioquímica não estejam em níveis normais a fim de garantirem sua masculinidade ou feminilidade. Presume-se que sua postura deva ser assumida pelo simples fato da presença de um pênis ou de uma vagina, não levando em conta seu perfil psicológico. O indivíduo é levado a assumir a vontade a qual o grupo lhe impõe, independente de seus próprios sentimentos. E nesse enredo preestabelecido, as crises começam a aparecer. Críticas, marginalizações e preconceitos passam a impor um modo de viver que, muitas vezes, oculta a verdadeira personalidade, impedindo que seu prazer de viver seja desfrutado de forma plena.

Assim, como para qualquer minoria que se sinta discriminada e excluída, é dada a garantia constitucional de organização, com o intuito de se fazer valer seus direitos civis, muitas vezes ignorados e desrespeitados por alguns insensíveis compatriotas. E dentro desse contraste que o casamento da organização civil com o poder público vai forjando uma sociedade mais evoluída, esclarecida e mais humana.

Daí o nobre papel da escola na formação e irradiação de uma opinião isenta de preconceitos, construída através de uma lucidez no trato de temas polêmicos, podendo construir os fundamentos onde as pessoas possam ser aceitas da maneira como são, dentro de um universo multicultural presente em toda a comunidade escolar.

Porém, esse espaço também necessita de adequações para que os resultados possam ser obtidos de forma satisfatória, já que seus personagens também são vítimas de possíveis equívocos do passado e precisam ser capacitados para o enfrentamento de situações tidas por não convencionais ao longo dos tempos.

Rogério Francisco Vieira
Biólogo e Professor

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Boca Maldita



Participei com essa marchinha no concurso nacional promovido pela Rede Globo.

Foi gravada no Colégio Estadual do Paraná com a colaboração do talentoso Jerônimo Bello.
                                            

Rogério Francisco Vieira
Biólogo e Professor                                      

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Homem Livre


Seja qual for o tipo de compromisso que você assuma, isso não pode lhe tirar a liberdade. Primeiramente porque você teve o livre arbítrio de assumir ou não uma situação.

Somos seres sociáveis, necessitamos de cuidado no início de nosso desenvolvimento biológico e psicológico. Porém, isso não nos torna escravo, submisso ou isento de vontade própria.

O discernimento saudável nos torna capazes de saber reconhecer, agradecer e de sermos generosos com as pessoas que nos cercam.

A subserviência não combina com a capacidade intelectual da qual, potencialmente, somos dotados. Nossa existência deve ser marcada
pela busca de uma evolução espiritual, pois aí reside o grande desafio em se almejar as qualidades de uma socieade mais justa e fraterna. Afinal, não existimos apenas pelo fato de existir. Não somos protagonistas passivos do fenômeno chamado vida.

Somos as criaturas mais complexas dessa biodiversidade terrestre, capazes de fazer com que os registros de nossa história sejam
transmitidos de geração em geração. Pode até nos causar estranheza o modo de como nossos antepassados viviam. Uma tecnologia limitada, uma maneira bruta de se relacionar com a natureza sem a preocupação ecológica dos dias atuais, assim como nossos descendentes irão nos taxar de atrasados sob suas óticas.

A busca da liberdade é algo que nos remete a eternidade. Mas o que é ser livre? Talvez a melhor resposta foi dada pelo filosofo grego Aristóteles:

"Liberdade é a capacidade que o todo homem tem de fazer somente o bem".

Parece bastante razoável, pois a prática do bem teria grandes chances de escancarar as portas aos buscadores do "mundo" livre. 

Porém, essa percepção também não é a mais exata e completa devido ao fato de que o "bem" e o "mal" serem relativos, na concepção de culturas diferentes.

Durkheim, eminente sociólogo, teve a liberdade suficiente para interpretar a capacidade de coerção do ser humano. Percebe-se que
mais que existir, o homem tem a necessidade de uma aceitação por parte de um grupo e, aí deixa de ter uma personalidade individual
para assumir as regras de seu agregado.

Ainda assim, apesar das normas e doutrinas sociais, a pessoa pode traçar sua existência com uma marca própria, pautada pela sua
maneira de conceber o mundo no qual está inserida.

Mesmo no matrimônio pode-se respirar o ar da liberdade. O casamento é um contrato entre duas pessoas afins que, trazendo bagagens culturais diferentes, optam em somar forças complementares para uma feliz convivência. Ser livre, neste caso,
não é sair e chegar na hora que bem entender. A liberdade consiste na confiança acordada entre as partes, pois um não é dono do outro. É a segurança de que se pode fazer tudo, sem que se possa gerar prejuízos para a outra parte, caso contrário a própria estrutura estabelecida perderia seu legítimo objetivo, transformando-se numa prisão de sentimentos e anseios.

O ser humano é livre por natureza e é isto que lhe confere a coragem de mudar o mundo na busca de uma existência muito mais
aprazível.

Rogério Francisco Vieira
Biólogo e Professor

    

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Poder do Vegetal


Essa canção eu fiz após uma maravilhosa e divina experiência com o Vegetal (União do Vegetal / Santo Daime).

Ao violão, meu irmão Rogelson Vieira.


Rogério Francisco Vieira
Biólogo e Professor
                                        


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Mitocôndrias Polonesas


E as aparências continuam enganando...

Somos vítimas de nossos próprios sentidos. Os olhos contemplam e o cérebro, numa fração de segundos, decreta que se reluziu é ouro e que se tem fumaça, há fogo. É o óbvio! Não é preciso ser gênio para tirar tais conclusões. O senso comum a tudo satisfaz, está longe das críticas e da rebeldia de pensamento. Faz com que tudo pareça normal, natural e previsível.

É o conjunto que garante o produto final das coisas, porém é o detalhe que faz a diferença. É aquele que muda a apoteose, que atinge o objetivo, que confere a essência e a qualidade. Num bolo, quem é o mais importante o fermento ou a farinha? Só com a farinha, não haveria crescimento; só com fermento, não daria a liga da massa. Assim, cada detalhe, cada elemento é fundamental para o bom êxito das coisas. O bolo de chocolate é gostoso porque é de chocolate e não por conter fermento, mas ninguém duvida da importância deste último. Após o resultado de uma partida de futebol, onde o time do coração fez cinco gols no temido adversário e não tomou nenhum, a torcida inebriada exalta a artilharia. Já depois do jogo, luzes e microfones convergem para o artilheiro, dando destaque ao herói da conquista, valorizando seu grande feito. 

Mas, ele não esteve em campo sozinho, seus companheiros tiveram suas cotas de participação na vitória e, principalmente, o solitário goleiro que impediu um possível revés no saldo final da partida.

Somos milhões de brasileiros dispersos numa verdadeira miscelânea étnica. Nisseis, cafuzos, mulatos ... identificados pelos seus fenótipos, sobressaindo-se de sua sutil bagagem gênica. O olho puxado, o cabelo pixaim, a concentração de melanina na pele, o formato do crânio, a distribuição de pêlos pelo corpo, tudo serve como elemento de rotulagem. E para completar a confusão, o sobrenome do indivíduo tenta anunciar sua linhagem, sua origem, que muitas vezes parece zombar com o bom senso de um padrão populacional.

A genética básica nos ensina que os 46 cromossomos [(22+X) + (22+Y)] são os responsáveis pela combinação bioquímica a partir do fenômeno da fecundação. Porém, o gameta feminino contrubui com um "algo a mais". O zigoto formado a partir do encontro das células sexuais, conserva a herança mitocondrial materna. A mitocôndria é o organóide relacionado com os processos energéticos da célula, assimilando o gás oxigênio para a respiração celular. Além disso, é uma organela de origem polêmica, já que possui a capacidade de autoduplicação pelo fato de conservar seu próprio material genético.

Assim, a disposição para o trabalho - seja ele físico ou mental - pode estar diretamente associado a bagagem mitocondrial materna. 

Se o pai é diretamente responsável pela geração de um menino ou de uma menina, da mãe estes podem herdar a afinidade de seu modus operandi.

No meu caso, o Vieira acusa uma raiz lusitana e provavelmente judia convertida em novo-cristão por conta da perseguição religiosa da Europa na época de meus antepassados. Apesar disso, nutro uma simpatia natural pelas coisas relacionadas a região geográfica da águia branca coroada, tal como o gosto pela cultura e culinária do povo polonês. A curiosidade por Leminski, o gosto pelo pierogi e pela vodca e, a admiração pela figura do corajoso polonês heliocentrista Nicolau Copérnico, parecem reforçar essa minha tese. Até a camiseta do "Solidariedade" de Lech Walesa cheguei a usar em apoio a abertura política polaca, numa demonstração da liberdade de expressão, sem nenhum vínculo partidário.

Curitiba possui a terceira maior população de descendentes de poloneses do mundo. O grande evento que marcou a memória dessas pessoas ocorreu em junho de 1980 com a visita de Karol Józef Wojtyła (papa João Paulo II, o João de Deus) e lá estava eu, levado por minha mãe, numa concentração de milhares de admiradores no Centro Cívico da capital dos paranaenses. Foi um momento de grande emoção para os católicos fiéis em recepção de seu grande líder.

Por essas e outras, minhas mitocôndrias não escondem esse meu lado polaco de ser.
Pokój i Miłość.

Rogério Francisco Vieira
Biólogo e Professor (com mitocôndrias Woitowski e Kaminski)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O "Senhor" Tempo.


Tempo, tempo, tempo... O “senhor” da razão.

A maturação agrega qualidades diferenciais ao produto e traz ao homem conhecimento e discernimento. Os processos naturais ocorrem independentemente da cronologia humana, apesar da ação antropogênica poder catalisar o desequilíbrio ambiental.

Vendo que os eventos na natureza são periódicos e que permitiam serem mensurados, o ser humano tratou de sistematizar a sua existência fixando pontos de referências na história da humanidade. 

Calendários maias, julianos, gregorianos entre outros, passaram a registrar o tempo a partir de um dado astronômico, como por exemplo um solstício ou um equinócio.

A bula papal que oficializou o calendário gregoriano no século XVI, extirpou dez dias do calendário juliano – até então predominante no continente europeu – com o objetivo de adaptá-lo a contagem de tempo, baseando-se na rotação da Terra em seu próprio eixo e na translação da Terra/Lua em torno do sol, inclusive com a criação do ano bissexto com o intuito de “zerar” os desvios cronológicos verificados durante o decorrer dos períodos.
Independente do analógico ou do digital, o relógio biológico dá o compasso para a biodiversidade do planeta, proporcionando a floração, a germinação, a migração, o sono e o momento de parir ou eclodir.

Entre as pessoas, o “time” é distinto. Enquanto uns demoram para processar uma situação, outros tomam decisões abruptas, muitas vezes precipitadas. Mas o que é certo? Fazer a hora acontecer ou esperar acontecer a hora? Muito relativo.

E quando se trata do tempo associado ao sentimento, a razão escorre entre os dedos e a paixão rasga o coração. Assim, num raro momento de inspiração o cantor e compositor pernambucano Alceu Valença fala sobre a Solidão, um sentimento de acomete mesmo aqueles que vivem cercado de pessoas:

“A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.”

Rogério Francisco Vieira
Biólogo e professor
Curitiba, dezembro 2012