sexta-feira, 26 de março de 2010

A Hipocrisia e o falso moralismo do país do futebol

Para aqueles que gostam de chavões requentados aqui vão dois para introduzir esse pensamento: “somos um país pacífico” e “somos o país do futebol”, ambos ecoados aos quatro cantos com um enorme sentido ufanista. Para aqueles que querem manter o status quo e deixar tudo como está, temos sim que nos manter nessa passividade do berço esplendido. Principalmente para aqueles que se dizem lideres da nação, cada qual em seu poder, poderem continuar dilapidando a 

Pátria amada, com o discurso da competência e da imparcialidade; tudo pelo bem do desenvolvimento de uma nação autônoma. 

Apesar da corrupção incrustada no país do futebol, tal fato ainda não foi motivo o suficiente para um levante popular para protestar contra a vergonha estabelecida no país, a não ser que seja articulada pelas forças ocultas que também anseiam em se locupletar do erário público, torcendo para que os “caras pintadas” consigam destituir os opositores e, com isso, possam ascender ao poder, na carona do falso moralismo.

Mas corrupção passa, a falta de escola passa, a saúde pública em caos passa... Mas tem coisas que mexem com o orgulho, fazendo o sangue ferver, fazendo o instinto do animal mais feroz aparecer. 

Geralmente essas coisas são encaradas como sagradas. No episódio do chute na Santa promovido por um pastor, o País católico não deixou por menos. Foi a público manifestar seu repudio, exigindo retratação.

Agora, num assunto também sagrado para o brasileiro – o futebol – os hipócritas e moralistas tentam “demonizar” a paixão do torcedor e atribuir a esses todo e qualquer culpa nos incidentes ocorridos na final do campeonato brasileiro desse ano.

Elegeram o mal do país, a persona non grata em qualquer lugar: o torcedor. Não aquele que ganha o ingresso numa promoção de rádio, ou que uma vez em vida vai ao estádio, embarcando na onda da moda. Mas o legítimo torcedor, aquele que faz mover o mercado milionário do futebol. Aquele que consome os produtos com o distintivo do clube, que não falta a um jogo e que não deixa esfriar na memória os grandes feitos de seu time, sempre o melhor e com a mais vibrante torcida.

No jogo Coritiba x Fluminense, que acabou em 1 x 1 e rebaixou o time paranaense, a torcida, numa demonstração de indignação, passa a ser a pior coisa para o País que está prestes a sediar uma Copa do Mundo. Mexeram com o sagrado, com o amor que motiva a vida de muitos. Como ficar passivo diante de tanta falta de respeito? Um clube centenário que se acovarda diante de uma administração frágil e incompetente para manter o time entre a elite de nosso futebol. Como engolir os descasos de um clube que congrega tantos admiradores?

Ironicamente, essa turma apaixonada, que viaja pra longe, levando as cores do clube, que grita e vibra empurrando a equipe, lição básica em qualquer curso de liderança motivacional para empresas, vê-se agora no banco dos réus

Burocratas fazem o que acham que devem fazer. Mantêm a torcida distante com o argumento que devem agir com a razão e não com a emoção. Jogadores mercenários que jogam em qualquer lugar, desde que possam ter dinheiro para ostentar um poder financeiro através de seu carro importado e por enormes correntes de ouro cravadas de diamantes com a inicial do nome. Isso é o que vale, o resto deixa para esse bando de apaixonados que são iludidos facilmente.

Não se está fazendo apologia à violência, mas também não se quer promover uma apatia diante de uma catástrofe envolvendo uma das mais amadas instituições do brasileiro. Tecer comentários em estúdios de televisão com ar condicionado, poltrona macia e comes e bebes a vontade é fácil. Encarar o contexto da situação, experimentar na pele todo um ambiente de emoções e sentir a descarga de hormônios no sangue promovendo alterações cardíacas e respiratórias é outra.

Lamentavelmente, as duas partes vítimas de tudo isso foram as que tiveram o maior confronto: a torcida e a polícia. A torcida pelo fato de não admitir a humilhação a qual estava sendo submetida. A polícia que, pela própria presença, já demonstra que ali ocorre um conflito e que esse deve ser reprimido em nome da ordem social. 

Policiais que também, como qualquer um, torcem para um time e ficam chateados quando o mesmo não sai vitorioso de um partida.

Os maiores culpados são os dirigentes que não tiveram o cuidado de manter a qualidade dos serviços que, como qualquer consumidor, o torcedor gostaria de ter. Satisfação ou seu dinheiro de volta.

Enquanto isso não mudar, esses dirigentes ficam se passando por vítima da situação, sensibilizando o lado “bom” da torcida a acreditar numa volta por cima, na captação de dinheiro para a reconstrução do estádio destruído pelos “vândalos”, pois esses mancham a imagem do clube.

Estão identificando quem foram os baderneiros que extravasaram suas revoltas e envergonharam a imagem do grande Coritiba Foot Ball Club, nascido em 1909 e re-rebaixado em 2009, em pleno Centenário. Mas que também identifiquem e responsabilizem aqueles que de forma oficial não fizeram nada para impedir tal situação.

No mais, a cartolada passa e os cães pulguentos e raivosos ficam latindo.

Rogério Francisco Vieira
Biólogo e Professor


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